Votação do impeachment na Câmara

Sem comentários Rudá Sudário

Hoje começa o espetáculo tão esperado por muitos brasileiros descontentes com o rumo econômico tomado pelo país, na figura de 513 deputados que irão votar se Dilma Rousseff deve sofrer o impedimento de seu mandato. Passada votação e a ressaca (em caso de vitória da oposição), os brasileiros irão acordar com a perspectiva de em algumas semanas terem Michel Temer como presidente do país.

O mercado, que vem sofrendo há anos com a queda da atividade e da perspectiva de melhora da economia, está em festa. Só nesta última semana o ibovespa subiu quase 6%, a Petrobrás 14% e o dólar caiu 2%. O descrédito dos investidores, empresários e agentes econômicos em geral com o governo é tamanho, que a possibilidade de um impedimento da presidente parece solucionar todos os problemas do Brasil na figura do presidente do PMDB e sua cartilha “Uma Ponte para o Futuro”.

Acredita-se que Temer será capaz de realizar um governo de coalizão com apoio total do congresso para aprovar as medidas que o país precisa para sair da crise. Isso desata as mãos do governo dando as ferramentas para agir, porém, não há ferramenta para sair da crise que não seja extremamente dolorosa.

A crise não é apenas política, é também uma crise econômica. Como o governo de coalizão poderá conter os déficits fiscais e o alargamento da dívida? Como conter a escalada do dólar a nível mundial (para os que pensam que só o real tem se desvalorizado, olhar as cotações das moedas de outros países exportadores como Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Rússia, Turquia…) e a consequente tendência inflacionária? Como jogar novamente os preços das commodities para cima? É possível tomar medidas para amenizar os efeitos de qualquer crise, mas para isso é necessário entender que os remédios não são saborosos, nem instantâneos, e as massas não são reconhecidas como indivíduos pacientes. Um presidente sem legitimidade terá grandes problemas para aguentar o longo caminho necessário até a solução da crise.

O crescimento econômico encobre uma porção de pecados, como incompetência e corrupção (mensalão?). Crises econômicas mostram quem estava nadando pelado quando a maré baixou. Os problemas econômicos e sociais entram em cena e aqueles com poder político tomam conta do cenário.

E o poder passará para o PMDB, com 3 dos seus integrantes na linha sucessória da presidência (e contraditoriamente, todos citados por corrupção no escândalo da Lava Jato). O que acontecerá quando o lado que hoje apoia o impeachment perceber que trocou 6 por meia dúzia, colocando a raposa para tomar conta das galinhas e que no caminho abriu precedente para o outro lado fazer o mesmo, no limite do que o poder permitir? O Brasil hoje poderá estar tomando o caminho de uma crise severa com luz no fim do túnel (2018 tem data), ou uma crise agravada por graves problemas institucionais e guerra ideológica irracional, possivelmente descambando para a violência física.

Rudá Sudário

Editor-chefe do Tendência Econômica