Tesla e os fundamentos do mercado

1 comentário Rudá Sudário

A notícia de que o valor de mercado da Tesla ultrapassou o da Ford mal havia sido digerida quando, no início desta semana, a Tesla fechou a segunda-feira com um valor de mercado US$64 milhões superior ao da GM, tornando-se naquele dia a maior fabricante de carros dos EUA.

Os analistas logo foram para a ponta da caneta. Enquanto em 2016 a Ford faturou US$151,8 bilhões e lucrou US$10,4 bilhões, a Tesla faturou US$7 bilhões e teve um prejuízo de US$746 milhões. A Ford possui várias fábricas ao redor do mundo e mais de 166.000 funcionários, a Tesla 30.000 funcionários e duas fábricas nos EUA. A Ford vende mais de 6 milhões de automóveis por ano, a Tesla até o final de 2016 havia vendido 186.000 veículos elétricos, desde sua fundação há 13 anos (primeiro automóvel lançado em 2008). Porém, nos últimos 4 anos, enquanto o valor de mercado da Ford caiu ano após ano, o da Tesla valorizou mais de 600%. Logo, disseram alguns, a Tesla nada mais é que o velho e conhecido esquema Ponzi.

“O fluxo de caixa deveria determinar qual o valor de uma empresa, e o nosso fluxo de caixa tem sido muito bom ultimamente” disse Joe Hinrichs, Presidente da Ford para as Américas.

Ambas percepções estão corretas, porém, incompletas. Enquanto o fluxo de caixa tradicionalmente é utilizado para determinar o valor correto de uma empresa, o que mais importa não é o efetivado, mas a perspectiva futura de crescimento. Já a Tesla não é um esquema Ponzi em si, mas seu valor de mercado está exageradamente inflado por um esquema Ponzi mundial, criado pelos bancos centrais, que está atingindo quase todos os ativos no mundo e criando bolhas em diversos mercados.

A política de juros zero/negativos dos principais bancos centrais do mundo despeja constantemente dinheiro de graça no mercado. Com um dinheiro sem custo, os fundamentos financeiros passam a valer cada vez menos (enquanto a bolha durar) e as “análises” do humor do mercado cada vez mais. Essa análise leva basicamente em consideração apenas um fator na hora de adquirir um ativo: “mesmo eu pagando muito mais do que isso vale, amanhã alguém vai pagar mais caro que eu estou pagando hoje?” – assim está em funcionamento a atual economia mundial, mecanismo que historicamente sempre resultou em crises financeiras.

Alguns chamam a bolha atual de “a bolha de tudo”. Difícil é encontrar quais mercados não estão prestes a estourar. Saber quando isso ocorrerá é impossível, o porquê, muito difícil. Mas as consequências são imagináveis. No caso do Brasil poderíamos ver a disparada do dólar e da inflação, seguido de um aumento nas taxas de juros na tentativa de contê-los e queda de commodities industriais (energia e metais), como petróleo e minério de ferro. Logo, a balança comercial seria bastante prejudicada e a atividade econômica como um todo despencaria. O desemprego, que já não é baixo, aumentaria. Se isso ocorrer – e a estrutura financeira mundial hoje está vulnerável a ceder por qualquer gatilho grave e inesperado – podemos esperar a maior crise financeira mundial de nossas vidas.

Rudá Sudário

Editor-chefe do Tendência Econômica

  • katia Vinhal

    Ótimo contexto !