O segredo dos países nórdicos

Sem comentários Rudá Sudário

Há um diálogo no livro O Mundo de Sofia, no capítulo sobre o filósofo David Hume, em que Sofia responde a Alberto sobre o ato de aumentar a produção de petróleo visando o aumento do padrão de vida da Noruega: “Absurdo. (…)nosso padrão de vida já é elevado o suficiente”.

Os países nórdicos costumam estar presentes nas primeiras posições em quase todas as listas de saúde pública, educação, igualdade social, baixa criminalidade e desenvolvimento econômico. Como eles atingiram tamanho grau de desenvolvimento? As políticas de distribuição, afinal, são a causa ou o efeito dessa riqueza?

Geograficamente, são países pequenos, com pequenas populações e ricos em recursos naturais, como o petróleo na Noruega, minério de ferro na Suécia, indústria florestal na Finlândia etc. A proximidade com grandes países capitalistas da Europa, como Alemanha, Holanda e Inglaterra, permitiu a Escandinávia participar da revolução industrial como grandes fornecedores de matéria-prima, gerando uma riqueza imensa a ser dividida para poucos, além da troca de conhecimento constante com sociedades desenvolvidas. Durante as duas grandes guerras, enquanto o resto da Europa era destruída, os países nórdicos se mantiveram neutros no conflito, mantendo-se intactos, e participando na reconstrução do continente no pós-guerra.

Culturalmente, esses países possuem uma população bastante homogênea, o que permitiu um desenvolvimento democrático sem grandes conflitos gerando um alto nível de confiança nas instituições e nas pessoas, corroborados até hoje por um baixo nível histórico de corrupção. O luteranismo também beneficiou os povos nórdicos com o incentivo ao estudo e a leitura, resultando numa alfabetização generalizada da população.

Economicamente, o alto nível de confiança da população em suas instituições permitiu a esses países adotarem desde cedo políticas desregulamentadas de comércio e nas relações de trabalho. A burocracia reduzida ao limite do necessário permitiu as empresas se desenvolverem sem o peso do Estado e as baixas tarifas de importação geraram trocas constantes de bens nos mercados internacionais. A propriedade privada e o estado de direito foram sempre valorizados. Os impostos das corporações foram mantidos baixos para que o empreendedorismo pudesse se desenvolver e serviços governamentais foram privatizados. Todas essas políticas liberais mantiveram os níveis de débito do Estado baixos, permitindo que o governo trabalhasse sem o peso dos juros de uma alta dívida.

Durante o período de 1870 a 1970, os países nórdicos estavam nas primeiras colocações dos países que mais cresceram economicamente no mundo. A partir de então, seus governos iniciaram as conhecidas políticas de distribuição, com o foco no Estado de bem-estar social. Antes, porém, muita riqueza foi criada. Como costumam dizer por aí: “não existe almoço grátis”.

Rudá Sudário

Editor-chefe do Tendência Econômica