O retrato do filósofo quando sábio

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Foto Matheus Bazzo

Quando as primeiras cinco notas musicais se apresentam, não sabemos se o documentário começou ou estamos assistindo ao começo de “O Poderoso Chefão”. Com a insistência da quinta nota em dar lugar à sexta, sabemos que o personagem será outro – e quando as primeiras notas do violino tocam dando lugar a imagens da cidade de Richmond, na Virgínia, sabemos que “O Jardim das Aflições” começou, e será regado a Sibelius. Logo ficamos confortáveis ao ver que o conteúdo não será atrapalhado pela forma. O filme está no mesmo nível técnico das grandes obras do cinema.

Entra Olavo, o caçador. Adentrando uma de suas bibliotecas, ele não procura um livro. Está carregando o pente de um rifle. Caminha calmamente para o jardim nos fundos de sua casa, rifle nas costas, senta em uma cadeira com apoio para a arma, mira o horizonte e desfere um tiro. Inicia-se a primeira parte: “Contra a tirania do coletivo”. Começa com um tiro de rifle, termina com um drone sobrevoando a Esplanada dos Ministérios dividida pelo “muro do impeachment”.

Posteriormente, vemos Olavo em um anexo de sua biblioteca, mostrando os livros sobre comunismo que ele possui: obras completas de Stálin e Lenin, quase todos os livros de Trotsky. “Nenhum comunista leu mais sobre comunismo que eu. Se tivesse lido não seria mais comunista”. Assim ele encerra o assunto alvo de tanta polêmica e parte para outros temas: liberdade individual, religião, formação da personalidade e consciência, morte e eternidade, leis e poder do Estado.

Em dado momento estamos na sala de sua casa, o filósofo abraçado com a mulher Roxane, contando histórias do passado: como se conheceram, personagens que cruzaram a vida de ambos, como eram as aulas do professor Olavo nos tempos pré-internet. Em outro momento conta o que o inspirou a levar um vida voltada para o conhecimento. É portanto um documentário de filosofia. O retrato do filósofo quando sábio.

Um documentário, no entanto, não permite conhecer as profundezas de um pensamento filosófico, e “O Jardim das Aflições” não é mais que o floco de neve da ponta do iceberg da filosofia de Olavo de Carvalho. Deve ser assistido não com o intuito de erudição, mas de inspiração, como no soneto de Rilke. “pois ali ponto não há Que não te mire. Precisas mudar tua vida.”

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