O impeachment e os problemas do Brasil

Sem comentários Rudá Sudário

Ontem, com o impeachment de Dilma Rousseff sacramentado, teve fim um processo iniciado anos atrás que prometia dar um jeito no sistema político do Brasil pavimentando o caminho para o futuro prometido tantas vezes falado na frase “O Brasil é o país do futuro”. Inicialmente protestando contra o aumento das tarifas de ônibus, logo o povo tomou as ruas com manifestações contra todo o sistema, nenhum político escapava.

Para inflamar as ruas, em 2014 deu-se o chamado “crash das commodities”, derrubando os preços dos produtos responsáveis por 60% das exportações brasileiras. O dólar começa a subir e como consequência a inflação explode (os índices teriam revelado isso antes se o governo não tivesse manipulado os preços administrados). Em outubro Dilma é reeleita no segundo turno por pouca margem e o país fica dividido. Alcunhas como “Coxinhas” e “Mortadelas” são criadas para descrever aqueles contra e a favor do PT. Com a lamentável situação econômica, posteriormente visível para todo mundo, Dilma perde quase todo seu apoio e vira o rosto de todos os problemas do Brasil. Especialistas de todos os ramos passam a alardear que retirando Dilma e o PT do governo o Brasil passará a ser o rico país que sempre mereceu. É a deixa para os políticos habilidosos se colocarem do lado certo e livrarem suas carreiras. Restava saber como realizar o processo. O salvador da pátria seria o vice-presidente Michel Temer, já que era possível colocá-lo na cadeira de presidente de forma legal e com a cartilha “Uma ponte para o futuro” seu partido havia ganhado o apoio das classes de poder.

Quase todo mundo gostou da ideia, os manifestantes aceitaram a alternativa e esqueceram as antigas reivindicações. Logo, seus líderes estavam de terno e gravata passeando nos corredores de Brasília com os políticos que antes eram combatidos. Enquanto isso os analistas do mercado apontavam a cada queda do dólar e a cada subida do IBOVESPA a explicação: “Dilma vai sair, Temer vai entrar”. Quando a câmara aprovou o início do processo de impeachment e o mercado caiu, disseram: “os investidores são cautelosos e vão aguardar a definição do impeachment”. As análises do futuro do país estavam sendo relacionadas ao futuro do impeachment quando deveriam estar olhando para o futuro das commodities, a grande protagonista de nossa economia. Teriam visto que o preço do petróleo, do minério de ferro, do café e da soja, por exemplo, atingiam valores mínimos em meados de janeiro e depois se recuperaram, assim como o Índice Bovespa.

O PMDB em sua última jogada, livrou Dilma da inabilitação para cargos públicos deixando livre também o caminho para solução de possíveis problemas semelhantes em seus quadros. O resultado de tudo isso: o PMDB novamente assumindo a presidência – Frank Underwood: “A Democracia é tão superestimada…” – e salvando a classe política da inquisição; Todas as reivindicações que mudariam o sistema político brasileiro se transformaram em poucas pessoas gritando “Fora Temer” e a sociedade brasileira continuando com todos os seus problemas a resolver. Lado “bom”: dessa vez temos os políticos certos para solucioná-las. Resta-nos torcer para que consigamos altos preços nas nossas mercadorias no mercado internacional ou que em dois anos Temer faça do Brasil o próximo Vale do Silício. “Dessa vez é diferente”, “o Brasil é o futuro”. “Sempre foi, sempre será”…

Rudá Sudário

Editor-chefe do Tendência Econômica